Texto por: Prof. Dra Wanessa Beheregaray.
A partir do momento que o Médico-Veterinário supera a avaliação, ele encara o desafio de adequar o tratamento para cada fase da cicatrização respeitando as individualidades e particularidades de cada paciente e, conhecendo os produtos e as técnicas de curativo.
Nesse material vamos iniciar abordando alguns equívocos que ocorrem no manejo de feridas e que precisam ser evitados, a técnica de lavagem da ferida, os princípios de tratamento e, até os diferentes produtos e suas indicações para um manejo adequado das lesões cutâneas abertas.
EQUÍVOCOS QUE PRECISAM SER SUPERADOS NO MANEJO DE FERIDAS
Ferida precisa respirar
Muitas pessoas ainda acreditam que manter a ferida sem curativo seria uma vantagem, pois assim ela respiraria. Esse é um grande equívoco, pois feridas não respiram. Todos os elementos que a ferida precisa para cicatrizar vem dos vasos sanguíneos. Quando usamos o curativo correto, com a frequência de troca adequada, só há ganhos em manter a ferida coberta, pois o ambiente será o ideal para que os processos cicatriciais ocorram.
Uma só prescrição
Ao longo do processo de cicatrização, as feridas vão passando por etapas que apresentam aspectos microscópicos e macroscópicos diferentes. Com isso, não há produto ou curativo que consiga atendar todas as características e necessidades de uma ferida, principalmente, quando abordamos aquelas que estão em processo de cicatrização por segunda intenção.
Lavagem da ferida na temperatura ambiente
O processo de cicatrização é realizado e otimizado dentro da temperatura corporal do paciente. Quando lavamos a ferida com solução na temperatura ambiente, estaremos reduzindo a temperatura da região que está passando pelo cicatricial, e para que esse processo retome é necessário que a temperatura retorne para o ideal. Nesse processo, o organismo gasta energia e leva algumas horas para que atinja essa temperatura ideal. Outro ponto importante, a solução aquecida é mais agradável ao paciente, o que torna o procedimento de limpeza da ferida menos desconfortável para ele.
Antibiótico tópico para prevenir contaminação
A lavagem da ferida feita sob pressão adequada poderá prevenir a contaminação de feridas, que ainda não tenham sinais de contaminação. Sinais evidentes de contaminação devem ser tratadas com antibiótico sistêmico adequado para o paciente e tipo de lesão. Para feridas crônicas é fundamental a realização e cultura e antibiograma antes da prescrição do antibiótico. Antibióticos tópicos tem uma eficiência menor e um risco de falha maior em sua aplicação, com isso, há um aumento no crescimento de bactérias multirresistentes. As luvas de procedimento são uma ótima forma de prevenir a contaminação cruzada e de cepas multiresistentes, elas devem ser usadas em todos os casos para a proteção dos pacientes e da saúde no veterinário.
Curativos são caros
Os curativos feitos rotineiramente, normalmente, não têm seu custo contabilizado de forma individual e nem ao longo de todo tratamento e isso dificulta a comparação com os curativos mais avançados. Quando analisamos o tratamento por inteiro podemos comparar a eficiência dos curativos avançados, e a menor duração do tratamento, logo, os custos acabam se equilibrando. A literatura humana e veterinária que abordam curativos avançados trazem os dados sobre o custo e o quanto eles se diluem quando consideram o tratamento como um todo e não o valor unitário de cada curativo.
PRINCÍPIOS DE TRATAMENTO
- Identificar e controlar infecções
- Eliminar a necrose
- Controlar a umidade
- Evitar danos adicionais como o trauma recorrente
- Adequar a frequência de troca de curativos conforme a fase da cicatrização: estágios iniciais com maior frequência e estágios mais avançados, quando já há tecido de granulação, a troca deverá ser menos frequente.
EXISTE DIFERENÇA NA CICATRIZAÇÃO DE FERIDAS DE CÃES E GATOS?
A resposta é sim. Os gatos possuem algumas características que tornam a cicatrização das feridas deles ainda mais desafiadora, são elas:
- Anatomia da pele (menor quantidade de vasos sanguíneos)
- Fase inflamatória mais branda
- Tecido de granulação mais pálido
- Pseudocicatrização
- Menor resistência na cicatriz
QUAL A FUNÇÃO DO CURATIVO?
Quando aplicamos o curativo correto e realizamos as trocas nos tempos adequados vamos promover benefícios para o processo de cicatrização e para o conforto do paciente. Ações que eles proporcionam:
- Proteção mecânica
- Proteção térmica
- Controlar a umidade
- Controlar a contaminação
- Eliminar a necrose
- Preencher a cavidade
LAVAGEM DA FERIDA
A lavagem da ferida é o aspecto mais importante durante o tratamento de feridas abertas. A lavagem pode ser usada para:
- Reduzir a contaminação bacteriana ou os materiais estranhos
- Reidratar tecidos necróticos
- Remover toxinas, citocinas, debris e bactérias associadas a feridas infectadas
A lavagem sob pressão ideal (6 a 8 psi) e em temperatura morna devem promover a limpeza suave e indolor. A pressão ideal pode ser obtida por meio da instilação do soro aquecido em uma seringa de 20 ml e através de uma agulha 18G à uma distância de 15cm (o jato vai “varrer” as bactérias para fora do leito da ferida). A lavagem da ferida é algo que vocês podem implementar de forma imediata na rotina, pois o custo de implementação é mínimo perto do impacto que causa no tratamento.
O QUE CONHECER PARA PRESCREVER
Separei aqui uma pequena lista de produtos e um resumo da indicação para facilitar a compreensão e prescrição. Sugiro aprofundar o conhecimento na indicação desses produtos para uma assertividade maior na prescrição:
- Alginato de Cálcio: indicado para feridas exsudativas e com necrose, trocas a cada 24hs
- Hidrofibra: indicado para feridas exsudativas, trocas a cada 24hs
- Poliuretano: indicado para feridas exsudativas ou feridas com tecido de granulação que esteja sujeito a sofrer traumas, trocas a cada 24h-48h
- Hidrogel: promove desbridamento autolítico, indicado para áreas de necrose, aplicação a cada 24hs
- Colagenase: promove desbridamento enzimático, indicado para áreas de necrose, aplicação a cada 24hs
- Ácidos Graxos Essenciais – AGE: indicado para manter a umidade das feridas na fase proliferativa ou no remodelamento, aplicação a cada 24hs
- Filme semipermeável: aplicado como curativo secundário de feridas cirúrgicas e de sondas, pode ser trocado a cada 7 dias, desde que não haja exsudato
- Película de Silicone: indicado para feridas com tecido de granulação frágil, pode ser associado ao AGE, as trocas são a cada 24-48hs.
- Placa de Hidrocolóide: indicado para feridas em fase proliferativa, na ausência de exsudato, pode ser trocado a cada 5- 7 dias.
- Creme de Barreira: indicado para prevenção de peles íntegras que estão ao redor de feridas muito exsudativas, ou áreas em que urina e fezes possam contribuir para uma lesão na pele, aplicar a cada 24hs, depois da higiene da pele.
Cada um desses produtos tem uma indicação e uma frequência de reaplicação adequada, fiquem atentos a avaliação e reavaliação da ferida para verificar se o tratamento prescrito continua sendo indicado.
DICAS DE OURO
- Não existe tratamento milagroso
- Adequar o tratamento para cada fase da ferida
- Verifique como o tratamento prescrito está sendo aplicado
- Cada paciente é um indivíduo e pode se adaptar melhor a um tratamento do que outro
- Fase inflamatória é a que mais podemos ajudar. A proliferativa e de remodelamento, não podemos atrapalhar.