Manejo de Feridas: Como tratar e o que usar?

maio 4, 2023 | Veterinários

Texto por: Prof. Dra Wanessa Beheregaray.

A partir do momento que o Médico-Veterinário supera a avaliação, ele encara o desafio de adequar o tratamento para cada fase da cicatrização respeitando as individualidades e particularidades de cada paciente e, conhecendo os produtos e as técnicas de curativo.

Nesse material vamos iniciar abordando alguns equívocos que ocorrem no manejo de feridas e que precisam ser evitados, a técnica de lavagem da ferida, os princípios de tratamento e, até os diferentes produtos e suas indicações para um manejo adequado das lesões cutâneas abertas.

EQUÍVOCOS QUE PRECISAM SER SUPERADOS NO MANEJO DE FERIDAS

Ferida precisa respirar

Muitas pessoas ainda acreditam que manter a ferida sem curativo seria uma vantagem, pois assim ela respiraria. Esse é um grande equívoco, pois feridas não respiram. Todos os elementos que a ferida precisa para cicatrizar vem dos vasos sanguíneos. Quando usamos o curativo correto, com a frequência de troca adequada, só há ganhos em manter a ferida coberta, pois o ambiente será o ideal para que os processos cicatriciais ocorram.

Uma só prescrição

Ao longo do processo de cicatrização, as feridas vão passando por etapas que apresentam aspectos microscópicos e macroscópicos diferentes. Com isso, não há produto ou curativo que consiga atendar todas as características e necessidades de uma ferida, principalmente, quando abordamos aquelas que estão em processo de cicatrização por segunda intenção.

Lavagem da ferida na temperatura ambiente

O processo de cicatrização é realizado e otimizado dentro da temperatura corporal do paciente. Quando lavamos a ferida com solução na temperatura ambiente, estaremos reduzindo a temperatura da região que está passando pelo cicatricial, e para que esse processo retome é necessário que a temperatura retorne para o ideal. Nesse processo, o organismo gasta energia e leva algumas horas para que atinja essa temperatura ideal. Outro ponto importante, a solução aquecida é mais agradável ao paciente, o que torna o procedimento de limpeza da ferida menos desconfortável para ele.

Antibiótico tópico para prevenir contaminação

A lavagem da ferida feita sob pressão adequada poderá prevenir a contaminação de feridas, que ainda não tenham sinais de contaminação. Sinais evidentes de contaminação devem ser tratadas com antibiótico sistêmico adequado para o paciente e tipo de lesão. Para feridas crônicas é fundamental a realização e cultura e antibiograma antes da prescrição do antibiótico. Antibióticos tópicos tem uma eficiência menor e um risco de falha maior em sua aplicação, com isso, há um aumento no crescimento de bactérias multirresistentes. As luvas de procedimento são uma ótima forma de prevenir a contaminação cruzada e de cepas multiresistentes, elas devem ser usadas em todos os casos para a proteção dos pacientes e da saúde no veterinário.

Curativos são caros

Os curativos feitos rotineiramente, normalmente, não têm seu custo contabilizado de forma individual e nem ao longo de todo tratamento e isso dificulta a comparação com os curativos mais avançados. Quando analisamos o tratamento por inteiro podemos comparar a eficiência dos curativos avançados, e a menor duração do tratamento, logo, os custos acabam se equilibrando. A literatura humana e veterinária que abordam curativos avançados trazem os dados sobre o custo e o quanto eles se diluem quando consideram o tratamento como um todo e não o valor unitário de cada curativo.

PRINCÍPIOS DE TRATAMENTO

  • Identificar e controlar infecções
  • Eliminar a necrose
  • Controlar a umidade
  • Evitar danos adicionais como o trauma recorrente
  • Adequar a frequência de troca de curativos conforme a fase da cicatrização: estágios iniciais com maior frequência e estágios mais avançados, quando já há tecido de granulação, a troca deverá ser menos frequente.

EXISTE DIFERENÇA NA CICATRIZAÇÃO DE FERIDAS DE CÃES E GATOS?

A resposta é sim. Os gatos possuem algumas características que tornam a cicatrização das feridas deles ainda mais desafiadora, são elas:

  • Anatomia da pele (menor quantidade de vasos sanguíneos)
  • Fase inflamatória mais branda
  • Tecido de granulação mais pálido
  • Pseudocicatrização
  • Menor resistência na cicatriz

QUAL A FUNÇÃO DO CURATIVO?

Quando aplicamos o curativo correto e realizamos as trocas nos tempos adequados vamos promover benefícios para o processo de cicatrização e para o conforto do paciente.  Ações que eles proporcionam:

  • Proteção mecânica
  • Proteção térmica
  • Controlar a umidade
  • Controlar a contaminação
  • Eliminar a necrose
  • Preencher a cavidade

LAVAGEM DA FERIDA

A lavagem da ferida é o aspecto mais importante durante o tratamento de feridas abertas. A lavagem pode ser usada para:

  • Reduzir a contaminação bacteriana ou os materiais estranhos
  • Reidratar tecidos necróticos
  • Remover toxinas, citocinas, debris e bactérias associadas a feridas infectadas

A lavagem sob pressão ideal (6 a 8 psi) e em temperatura morna devem promover a limpeza suave e indolor. A pressão ideal pode ser obtida por meio da instilação do soro aquecido em uma seringa de 20 ml e através de uma agulha 18G à uma distância de 15cm (o jato vai “varrer” as bactérias para fora do leito da ferida). A lavagem da ferida é algo que vocês podem implementar de forma imediata na rotina, pois o custo de implementação é mínimo perto do impacto que causa no tratamento.

O QUE CONHECER PARA PRESCREVER

Separei aqui uma pequena lista de produtos e um resumo da indicação para facilitar a compreensão e prescrição. Sugiro aprofundar o conhecimento na indicação desses produtos para uma assertividade maior na prescrição:

  • Alginato de Cálcio: indicado para feridas exsudativas e com necrose, trocas a cada 24hs
  • Hidrofibra: indicado para feridas exsudativas, trocas a cada 24hs
  • Poliuretano: indicado para feridas exsudativas ou feridas com tecido de granulação que esteja sujeito a sofrer traumas, trocas a cada 24h-48h
  • Hidrogel: promove desbridamento autolítico, indicado para áreas de necrose, aplicação a cada 24hs
  • Colagenase: promove desbridamento enzimático, indicado para áreas de necrose, aplicação a cada 24hs
  • Ácidos Graxos Essenciais – AGE: indicado para manter a umidade das feridas na fase proliferativa ou no remodelamento, aplicação a cada 24hs
  • Filme semipermeável: aplicado como curativo secundário de feridas cirúrgicas e de sondas, pode ser trocado a cada 7 dias, desde que não haja exsudato
  • Película de Silicone: indicado para feridas com tecido de granulação frágil, pode ser associado ao AGE, as trocas são a cada 24-48hs.
  • Placa de Hidrocolóide: indicado para feridas em fase proliferativa, na ausência de exsudato, pode ser trocado a cada 5- 7 dias.
  • Creme de Barreira: indicado para prevenção de peles íntegras que estão ao redor de feridas muito exsudativas, ou áreas em que urina e fezes possam contribuir para uma lesão na pele, aplicar a cada 24hs, depois da higiene da pele.

Cada um desses produtos tem uma indicação e uma frequência de reaplicação adequada, fiquem atentos a avaliação e reavaliação da ferida para verificar se o tratamento prescrito continua sendo indicado.

DICAS DE OURO

  • Não existe tratamento milagroso
  • Adequar o tratamento para cada fase da ferida
  • Verifique como o tratamento prescrito está sendo aplicado
  • Cada paciente é um indivíduo e pode se adaptar melhor a um tratamento do que outro
  • Fase inflamatória é a que mais podemos ajudar. A proliferativa e de remodelamento, não podemos atrapalhar.

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